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Euclides da Cunha 1866 - 1909

''Venci por mim só, sem reclames, sem patronos, sem a rua do Ouvidor e sem rodas. Não invejo, porém,

os que se vão buscando mar em fora, de outras terras, a esplêndida visão...

Fazem-me mal as multidões ruidosas, e eu procuro, nesta hora,

cidades que se ocultam majestosas na tristeza solene do sertão." - Euclides da Cunha (1866 - 1909)

À memória de Euclides (José Marcio Castro Alves)


São Paulo, 23 de abril de 1896.

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SãoPaulo, 23 de abril de 1896
João Luís Alves

Saúde, desejando felicidades.
Atribuo a motivo plenamente justificável o silêncio do meu digno amigo e desejo imensamente que não seja moléstia e sim grandes preocupações a causa principal do fato de não haver respondido às minhas ultimas cartas.
Cumprindo o que me determinou enviei daqui, competentemente registrado o Direito das Obrigações e encarregarei a um amigo do Rio o st. Alfredo Chaves de mandar de lá o Direito das Famílias — que atualmente não existe aqui. Ora, não tendo comunicação alguma daí e sendo natural qualquer extravio peço-te mandar dizer se os recebestes. A vida atarefada que tenho impediu-me até hoje de completar as encomendas com que me honrou; deve desculpar-me — e nem para outra coisa foram feitos os amigos. Mande-me, pois, qualquer resposta a respeito.
Nós continuamos sem maior novidade os filhinhos fortes e robustos, reagindo a este clima deprimente.
Absorvido pelo estudo da Mineralogia, vivendo numa áspera sociedade de pedras, esqueci-me da minha situação presente, de modo que ontem fui surpreendido com ordem para me apresentar ao Comando do Distrito por haver terminado o tempo de agregação — e devo entrar amanhã em nova inspeção de saúde, cujos resultados te comunicarei. Qualquer que ele seja, creio que persistirei no objetivo que tracei. Em todo o caso, fazendo, creio, juízo seguro acerca dos sentimentos dos meus amigos, estou certo que eles não atribuirão à falta de orientação tanta vacilação de minha parte em tomar uma solução definitiva.
Quem vive nesta tranqüila e boa Campanha não pode ajuizar acerca do estado da nossa terra, estado atumultuado e indefinível dentro do qual a normalidade, para os que não se deixaram corromper ainda, consiste mesmo neste vacilar, a todo o instante, incessantemente. Você tem bastante espírito para compreender as coisas atuais e dar-me razão. Aí vai um exemplo característico das torturas porque passa quem quer que ainda seja sincero ou antes ingênuo, nesta adorável terra:
Comecei, com todo o afinco a estudar para um próximo concurso (ao qual ainda não renunciei); no fim quase de um mês, porém — começou a dar-se o seguinte: o cidadão A, cheio de íntima convicção, baseado em anteriores exemplos, fatos passados com outros, afirmava-me que isto de concurso em 5. Paulo não valia nada, sendo invariavelmente nomeado persona grata do governo, citando-se mesmo o fato recente da anulação de um concurso pelo fato de ter má colocação cidadão favorecido pelo apoio oficial. Logo após o cidadão B, confidencialmente, fazia alusão à minha seita positivista (eu, positivista!) e à birra especial de algumas influências pelos que a professam.
O cidadão C, lembrava-me artigos meus, de 92, no Estado, em que combati energicamente a maneira pela qual foi organizada a Escola etc. Um outro, comunicava-me a existência de terrível adversário, um dos primeiros geólogos do Brasil, discípulo e braço direito de Gorceix etc. etc.
Imagina que imenso esforço para ficar a cavaleiro de tudo isto ( João Luís — convença-se de que a nossa geração é a mais desta terra; — a nossa mocidade dá-nos uma esplêndida energia mas, neste meio, esta energia... é uma fraqueza deplorável. Os lori os maleáveis de todos os tempos; os vitoriosos são os que se deixai vencer a todo o instante, passíveis, como autômatos, a todos os caprichos.
Paradoxal, embora, é a verdade o que aí vai escrito.
Você dirá que estou num dos meus momentos de pessimismo agudo; não estou, escrevo-te calmo, sem contrariedades e com a neutralidade a mais perfeita de observador. Referindo-me ao mau estado das coisas da nossa terra se alguma mágoa me assalta é a mesma de física qualquer examinando a marcha da sífilis num organismo estragado.
Daí... talvez seja isto progresso, talvez esta decomposição do ponto crítico da passagem de uma homogeneidade indefinida e incoerente a uma heterogeneidade coerente na frase mais artística do que profunda de Spencer.
Falemos, porém, de coisas mais íntimas: como vão os nossos amigos da Campanha, o dr. Brandão, comdor. Veiga, etc. etc.? Peço-lhes um grande abraço por mim.
Quando pretende vir até cá, a fim de defender a tese como A propósito, devo comunicar que se vão abrir diversos concursos na Escola de Direito, sendo candidato a um deles o ultra-eminente Pujol.
Por que não vens, rapidamente embora, dar uma volta até minha tenda de árabe está armada pronta a receber os velhos companheiros. Responda qualquer coisa neste sentido.
A Saninha manda muitas recomendações a d. Fernandina, d. Messias, enfim a todos. Não escreve porque esteve doente e muito atrapalhada com os filhinhos que quanto mais crescem mais cuidados dão. encerrar esta que já vai longa. Realmente abusei um pouco — mas também há quanto tempo não conversamos?
Adeus - dê por mim saudades a teu sogro e demais amigos sempre às ordens aqui está amº. obrmo.
Euclides
B. — Não se esqueça de dizer-me logo se recebeu os livros.






Lorena, 19 de outubro de 1902

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Lorena, 19 de outubro de 1902
Francisco Escobar
Respondo a tua carta, agora recebida. Pilhérico sonho, o teu... Ministro! Ministro da Viação este teu pobre amigo! Só mesmo em sonhos... Mas queres saber de uma coisa? Prefiro ser realmente ministro nos breves minutos de um sonho, ocupando a imaginação de um amigo, do que o ser, de fato, nesta terra onde não há mais altas e baixas posições... Minado tudo.
Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus Sertões; fui lê-lo com mais cuidado e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente... Um horror! Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro? Manda-me dizer daí algo a respeito. Imagina que lá encontrei à fa/câo, à pranchada, braço à braço, tempos à tempos, etc. etc.
Não te posso dizer como fiquei. Por fim abrindo, ao acaso, depois do jantar, uma página, encontrei isto: "Não iludiu à história..."
Não te descrevo o que houve! Quer isto dizer que estou à mercê de quanto meninote erudito brune as esquinas; e passível da férula brutal dos terríveis gramatiqueiros que passam por ai os dias a remascar preposições e a disciplinar pronomes!
Felizmente disseram também que o Victor Hugo não sabia francês.
Vou escrever ao Laemmert para reduzir quanto possível, a primeira edição, se houver tempo.
Minal, egoisticamente, falei-te só no que me dizia respeito. Desculpa-me; e escreva-me logo. Quero que venha daí, de longe partindo dessa boa alma de velho companheiro, uma palavra que me anime um pouco.
Adeus. Recomenda aos teus — o velho amº.
Euclides O Napoleão de Roseberry... Extraordinário.

Exmo. sr. José Veríssimo

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Lorena, 3 de dezembro de 1902
Exmo. sr. José Veríssimo
Ao ler no Correio de ontem a notícia do seu juízo critico sobre os Sertões, tive, renascida, uma velha comoção que já supunha morta — a de calouro, nos bons tempos passados, em véspera de exame. E não era para menos, dada a competência do juiz. Felizmente este foi generoso. Demonstra-o o belo artigo que acabo de ler, no qual, atendendo principalmente às observações relativas à minha maneira de escrever, colhi proveitosos ensinamentos.
Num ponto apenas vacilo — o que se refere ao emprego de termos técnicos. Aí, a meu ver, a crítica não foi justa.
Sagrados pela ciência e sendo de algum modo, permita-me a expressão, os aristocratas da linguagem, nada justifica o sistemático desprezo que lhes votam os homens de letras — sobretudo se considerarmos que o consórcio da ciência e da arte, sob qualquer de seus aspectos, e a tendência mais elevada do pensamento humano. Um grande sábio e um notável escritor, igualmente notável como químico e como prosador, Berthelot, definiu, faz poucos anos, o fenômeno, no memorável d com que entrou na Academia Francesa.
Segundo se colhe de suas deduções rigorosíssimas, o escritor futuro será forçosamente um polígrafo; e qualquer trabalho literário se distinguirá dos estritamente científicos, apenas, por uma síntese mais delicada, excluída apenas a aridez característica das análises e das experiências.
Se não mo impedisse esta minha vida perturbada de commis-voyageur da engenharia (e hoje mesmo seguirei para 5. Luís do Paraitinga em viagem urgente!) abordaria esta questão pela imprensa. Mais competente, porém, para isto, é o sr., que, ademais, tem grandes responsabilidades pelo nosso movimento literário. Por que não a agita? Eu estou convencido que a verdadeira impressão artística exige, fundamentalmente, a noção científica do caso que a desperta — e que, nesse caso, a comedida intervenção de uma tecnografia própria se impõe obrigatoriamente — e é justo desde que se não exagere ao ponto de dar um aspecto de compêndio ao livro que se escreve, mesmo porque em tal caso a feição sintética desapareceria e com ela a obra de arte.
Desejo muito conhecer o seu pensamento acerca desta questão; e comprometo-me desde já a defender, na medida das minhas forças, a tese acima esboçada.
Terminando, resta-me agradecer de todo o coração o nobilitador juízo que manifestou por mim e a verdadeiramente admirável compreensão que teve do meu livro, em que pese a uma leitura naturalmente rápida.
Peço-lhe que me recomende à Exma. senhora e filhos, acreditando sempre na alta consideração do — amº. e admirador
Euclides da Cunha
P. S. — Estarei de volta, de 5. Luís, no domingo, 7 do corrente.

Lorena, 27 de fevereiro de 1903 - Amigo dr. Araripe Júnior,

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Lorena, 27 de fevereiro de 1903
Amigo dr. Araripe Júnior,
Recebi o seu cartão e aguardo — nem imagina com que ansiedade! — o seu juízo sobre os meus Sertões.
Na véspera havia lido o seu último artigo sobre os "Comentários" da nossa Constituição Federal, do dr. João Barbalho, e, francamente, ali notei, sob um aspecto inteiramente novo, ajustado ao destino dos povos americanos, a doutrina, sem número de vezes discutida e falseada, de Monroe.
Mas o que sobretudo me impressionou foi o desassombro, a magnífica rebeldia de um espírito em plena insurreição contra o nosso sentimentalismo mal educado e estéril. Considero o paralelo, ou melhor, o contraste lucidamente exposto, entre as duas expansões, a teutônica e a ianque, como raio de uma visão que nos últimos tempos mais se tem dilatado no perquirir o destino superior da civilização.
Sou um discípulo de Gumplowicz, aparadas todas as arestas duras daquele ferocíssimo gênio saxônico. E admitindo com ele a expansão irresistível do circulo singenético dos povos, é bastante consoladora a idéia de que a absorção final se realize menos à custa da brutalidade guerreira do "Centauro que com as patas hípicas escarvou o chão medieval" do que à custa da energia acumulada e do excesso de vida do povo destinado à conquista democrática da terra.
Não calculo até que ponto se possa aceitar o seu otimismo sobre a hegemonia norte-americana. Mas, dado mesmo que ele falhe por completo, e que o malsinado imperialismo ianque se exagere até a posse dos países estranhos, — de que nos valeriam lamúrias de superstições patrióticas?
Vi no seu artigo um significado superior, sugerindo uma medida prática; subordinados à fatalidade dos acontecimentos, agravados pela nossa fraqueza atual, devemos antes, agindo inteligentemente, acompanhar a nacionalidade triunfante, preferindo o papel voluntário de aliados à situação inevitável de vencidos.
É o pensar dos que não desejam ser amigos ursos da Pátria, embora atraindo a pedrada patriótica dos que por aí, liricamente, a requestam numa adorável inconsciência de perigos que a rodeiam.
E julga-se feliz com esta perfeita uniformidade de vistas, o seu patrício admor.
Euclides da Cunha

Dr. Araripe Júnior

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Lorena, 9 de março de 1903
Dr. Araripe Júnior
Cheguei de 5. Paulo onde li o magistral artigo sobre Os Sertões e posso escrever-lhe desafogadamente porque não transmito a minha impressão, mas a de todos que sabem ler naquela cidade.
O seu artigo fora anunciado por um telegrama vindo para o jornal da tarde A Platéia. O Jornal era esperado. Às dez horas da noite tinha-o lido quase toda a roda literária paulista e às dez e meia eu saí da redação do Estado de 5. Paulo com o enorme estonteamento de um recruta transmudado repentinamente num triunfador.
Compreendi então quanto é inerte (na significação que damos em mecânica à palavra) a opinião, mesmo entre espíritos cultos; absolutamente passiva, como a cera, um molde admirável para corporizar o pensamento dos eleitos.
Porque, no dia seguinte, eu — que até então era um engenheiro-letrado, com o defeito insanável de emparceirar às parcelas dos orçamentos as idealizações da Arte era um escritor, apenas transitoriamente desgarrado na engenharia. A sua grande generosidade, a sua honrosíssima simpatia, garantidas ambas por um espírito robusto, impuseram-me — libertando-me do aspecto dúbio, meio profissional, meio artista, que me tornava um intruso em todas as carreiras.
Nem sabe quanto lhe devo...
Além disto aquela análise recorda a crítica reconstrutora de Macaulay.
A significação histórica do grande agitador sertanejo que delineei apenas, ajustando-se à escola antropológica, aparece mais nítida, explicada pelas circunstâncias especiais do meio que não tive tempo de conhecer e pelo caráter essencial do indivíduo que não apreendi com segurança, dadas as causas perturbadoras que radicavam a minha observação.
Ao chegar encontrei reclamações de empreiteiros que me obrigam a seguir já, em viagem. — Até muito breve, porém.
Creia sempre no patrício e admor.
Euclides da Cunha

Lorena, 12 de março de 1903.

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Lorena, 12 de março de 1903
Dr. Araripe Júnior
Chego de viagem; fantástica viagem em que, rompendo pelos caminhos deste velho recanto de 5. Paulo, eu fui bater na Bahia e no século XVII... É que o trole me conduzia a Silveiras e a Areias, enquanto o meu companheiro de viagem, o infernal Gregório de Matos, "um diabo passado por crivo de fios aristofanescos trançados com luxúria por mãos de feiticeiras", suplantando o gordo empreiteiro que gaguejava ao lado não sei mais que estafantes conceitos sobre um orçamento — o estupendo Homero dos lundus, arrebatava-me num prodigioso salto mortal do espírito sobre dois séculos, para a grande matriz das nossas tradições. E lá segui com ele, embetesgado nas vielas da velha capital... Belo sonho! Um dia estranho de vilegiatura ideal... Por uma evocação, exagerada talvez, eu vi a vida tumultuária da Arcada original dos Capadócios, nos velhos tempos e em plena vernação dos seus atributos característicos. E foi num verdadeiro estonteamento — entre risos, rasgados de violas, dolências de modinhas, saracoteios de sambas, e, aqui, passando entre serpentinas e cadeirinhas adamascadas, ali acotovelando reinóis recém-chegados ou esbarrando num volver de esquina com o frívolo Rocha Pita, contemplando de relance o padre Damaso, evitando, adiante, o feroz "Braço de Prata", saudando mais longe o previdente Lancastre — que eu vi pela primeira vez o terrível trombeteiro de má morte, o vilanaz Aristófanes das mulatas.
Que ressurreição e que figura!
E quando o pobre velho me desapareceu, afinal, obscuramente, num engenho de Pernambuco, toda a sua ironia de fogo e as suas rimas cauterizantes e as suas risadas vingadoras extinguiram-se também, de chofre.
É uma vida a que se assiste entre risos e comenta-se com austeridade. Porque o que ressalta, sobrepujando toda a sua desenvoltura pagodista — é o eterno martírio dos predestinados.
Mais do que o homem, biologicamente falando, Gregório de Matos foi um admirável órgão social quase passivo, feito uma alavanca, cuja força eram as próprias forças coletivas: uma máquina simples em que se corporizaram muitas tendências da raça nova que surgia. Foi "herói" na alta significação dada à palavra pelo dramático Carlyle: prefigurou, fundindo-se na sua individualidade isolada, muitos aspectos de um povo.
E passou pela vida obedecendo à fatalidade mecânica de uma resultante intorcível: incorrigível, rebelde sempre à visão estreita dos que pensavam morigerá-la, como se houvesse preconceitos ou regras para estes avant-coureurs das nacionalidades, títeres privilegiados, arrebatados pelas leis desconhecidas da história. Foi um grande sacrificado o desenvolto folgazão! E maior que os seus êmulos, de Juvenal a Bocage, a sua sátira, em que pese ao tom ferocíssimo e maligno, pertence-lhe menos do que às rebeldias nascentes e relaxamentos inevitáveis de uma sociedade em que se chocavam os vícios de um povo velho, agravados pela "bebedeira tropical" e os instintos inferiores de duas raças bárbaras.
Desta alquimia horrorosa, tendo como reagentes o deslumbramento solar, a canícula mordente e a terra fecunda, só podia surgir naquela retorta da Bahia desmedida aquele precipitado.
Foi tão natural e espontâneo que ainda não se extinguiu. Difundiu-se em dois séculos, e aí está, impressionante, nesta adorável capadoçagem nacional que atenua em boa hora a nossa melancolia de semibárbaros...
Mas noto a tempo o desgarrão que me desorienta, escrevendo, rápidas, estas linhas, tomando-lhe o tempo e expondo aí, desalinhadas e em tiagrante, a impressão ou antes uma das impressões que me deixou seu belo livro. Vou relê-lo e talvez melhor o compreenda.
Recebi o seu cartão. Não devia surpreendê-lo o efeito do artigo. A sua ação intelectual, afirmo-o, e confirmam-me algumas cartas que a respeito recebi, — é muito maior do que julga.
Pretendia falar sobre o notável mimetismo psíquico da obnubilação exposto no livro com tanta clareza. Mas onde iriam parar os meus orçamentos e os meus projetos e os meus empreiteiros, se eu firmasse a pena nesta discussão?
Até breve, e creia sempre na alta consideração e estima do patrício e admirador
Euclides da Cunha

Meu venerando compatriota Joaquim Nabuco.

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Lorena, 18 de outubro de 1903
Meu venerando compatriota Joaquim Nabuco. Dando a preferência de seu sufrágio ao almirante Jaceguay e implicando-a com tanta superioridade, o sr. deu à carta, com que me distinguiu, um raro traço de nobreza, sobredoirando o valiosíssimo autógrafo que guardarei carinhosamente entre as melhores relíquias, que possuo. De pleníssimo acordo com o seu pensar, e agradecendo-lhe muito, o tê-lo exposto sem rodeios, (porque me fez justiça de acreditar que de modo algum eu me poderia sentir abatido, no plano secundário que naturalmente ocupo ante aquele notável compatriota) posso afirmar-lhe que não aventurara a minha candidatura se a tivesse de opor à do autor do Dever do Momento, livro a que devemos em parte a felicidade de vermos restituído à atividade política aquele cuja Formação reflete incisivamente, sintetizado numa existência individual, a própria formação do que há de mais brilhante, de mais sério e de mais robusto na nossa consciência coletiva atual.
Não vai a mínima lisonja nestas linhas. Todos os de minha geração devemos muito à sua palavra, porque a ouvimos precisamente na quadra em que sua tonalidade prodigiosa se harmonizou admiravelmente a todos os grandes arrojos e desinteresses da mocidade.
Ela — que por uma circunstância notável tantas vezes se alevantou em frente a Escola Politécnica — dominava, não raro a dos nossos mestres e ampliou o nosso destino subalterno de engenheiros, dando-lhe um significado superior tão bem expresso naquele "triangulador do futuro", a que se refere imaginamente, golpeando de súbitos lances de gênio a secura matemática da aula de Construção, o bom e genial André Rebouças.
Não me demorarei neste assunto, para não me delongar. Basta-me assegurar-lhe que nenhum de nós, rapazes daquele tempo, traiu aquela admiração antiga para que o sr. aquilate bem a verdadeira ufania com que recebi as suas letras.
Quanto aos Sertões — aguardo tranqüilo o resultado de sua leitura. Os deslizes na forma que o inquinam (o José Verissimo inflexivelmente os denunciou) empalidecerão na escala de sinceridade com que esboço as suas páginas. Aí está o seu único valor, mas este é desmesura. Releve-me esta verdade, o Dante, para zurzir os desmandos de Florença idealizou o inferno; eu, não, para bater de frente alguns vícios do n~ singular momento histórico, copiei, copiei apenas, incorruptivelmente um dos seus aspectos... e não tive um Virgílio a amparar-me ante o furor dos condenados!
Não lhe devo tomar mais seu tempo que nesta ocasião pertence todo à nossa terra. Termino assegurando-lhe o meu maior apreço, a certeza e crescente admiração como comp. at. e amº.
Euclides da Cunha

CONTINUAÇÃO